O que não te contam sobre fazer da gentileza mais que uma modinha

Depois de uma dermatite, resolvi que ia procurar um médico. Durante a consulta com o especialista, aponto para a estante de livros e pergunto sobre uma foto que me chamou a atenção.
Por cima dos óculos, ele olha na direção, pausa a receita médica que fazia e dispara: “Você disse que é escritor, não é? Então, se prepara para uma boa história, garoto.”

Empolgado, ele me conta que participa todo ano de um programa de voluntariado com pessoas do mundo todo. Ele e outros médicos, dedicam 4 meses, geralmente em alguma região economicamente precária do planeta, a atender pessoas em condição de miserabilidade, tudo isso via uma organização mundial bem conhecida.

Entre um detalhe e outro, ia me contando deixando nítido sua postura de felicidade, o sorriso saudosista deixava claro o senso de utilidade, usava uma linguagem positiva e seus olhos brilhavam denunciando de uma maneira especial, que ele sabia o bem que fazia as pessoas quando estava lá.

Confessou-me que apesar de ter conquistado muito reconhecimento profissional, de ter conquistado uma condição financeira segura, ele esperava ansioso todo ano por aqueles meses como uma criança espera o Papai Noel no fim do ano.

Interrompi sua empolgação e conclui: “Doutor, vejo os olhos brilharem quando o senhor conta isso. Quer saber o que é isso? É a sua gentileza o levando ao cerne do que o senhor veio para fazer no mundo. Acontece que sua gentileza não é propaganda, não é fabricada, é algo que carrega consigo.”

A gentileza como parte do ser humano

A maioria das pessoas gosta de pensar em si como uma pessoa gentil. Os atos de bondade que realizamos nos ajudam a construir uma identidade positiva sobre nós mesmos. Consequentemente, nos autopercebemos como alguém generoso e isso nos faz sentir um tanto menos culpados e, automaticamente, mais orgulhosos do que descobrimos que podemos sentir, ser e fazer.

Diante de um mundo enraizado no individualismo e no narcisismo — especialmente no ambiente digital — ser gentil e exercer a empatia é visto como algo extraordinário. Não é complicado ser gentil em certas ocasiões, difícil é ter uma mentalidade de generosidade constante.

É claro que existem diversas maneiras diferentes de perceber e praticar pequenos atos de gentileza, mas em um mundo absolutamente sem empatia, qualquer ação em prol da cortesia e da delicadeza nos deixa abismados.

Temos falado muito sobre o assunto atualmente. Já foi o tempo em que a gentileza era coisa de monges budistas nas montanhas do Tibet. A polidez usual é instrumento necessário e importante na vida individual, nas relações coletivas, no mundo dos negócios e em um mundo cada vez mais plural.

A gentileza não é mais um superpoder e não deveria ser vista como atributos de um super-herói, mas tem que fazer parte de uma realidade diária e estar inserida nos meios mais convencionais da humanidade. Não pode ser um palanque para se promover, tem que ser uma alavanca de ações em prol do outro.

Quando falamos de cultura da gentileza, estamos falando de que?

Parece-me que é mais comum encontrar a ideia de ser gentil sendo praticada em ambientes em que não existem obrigações claras e que não possuem relações de compromisso e responsabilidade. É muito mais fácil ser gentil com uma criança da Africa do que com aqueles que convivemos todos os dias.

No ambiente de trabalho, por exemplo — cercado de hierarquias, fomentado por competições, ambientados com disputa, vendo o concorrente como alvo de eliminação, valorizando uma alta velocidade nos reasultado —  o assunto ainda é muito recente. 

De igual modo, nos ambientes familiares, a cultura de gentileza exerce mais um papel diplomático, do que demonstrar qualquer interesse em compreender e reconhecer fragilidades alheias. 

Apesar de parecer que a empatia esteja mais presente em ambientes de amor, é justamente o contrário que costuma acontecer. O ambiente do amor tem peculiaridades comportamentais muito mais nocivas, pois carrega consigo uma hostilidade provocada pela liberdade, pela obrigação do perdão e pela constante aproximação que o senso de comunidade traz. Dizemos as maiores e mais indelicadas atrocidades em nome de uma suposta intimidade.

É por isso que a cultura de gentileza tem a sua estreita relação com o exercício da empatia, com a prática da escuta ativa, com o esforço para o entendimento mútuo e e o reajuste de sintonia possíveis.

Ser gentil não é tão difícil quanto parece

O que não te contam sobre a gentileza é que é mais do que preparar discursos sobre se colocar no lugar do outro e forçar um ambiente artificial. Ser gentil tem que ser encarado como uma oportunidade constante. É obrigatoriamente se despir inicialmente de todo e qualquer argumento bélico, parar e se conectar com os outros.

O desafio de criar mudanças organizacionais e sociais que nos ajudem como os nossos modos de olhar a vida, os preconceitos que construímos a longo do tempo e barreiras psicológicas que nos impedem de estar ligados ao outro.

A gentileza é obviamente uma sequencias de aulas que vão resignificando pequenos trechos da vida inteira e é por isso que é a coisa mais importante que você pode fazer por você, pelos outro e pelo mundo.

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