O que não te contam sobre o "eu te amo" estar cada vez mais raro

Sim, há quem tenha vivido um tempo em que o “eu te amo” era mais popular. Às vezes, esses dizeres eram inevitavelmente inconsequente, ligeiramente abastado, mas sempre com endereços fixos.

A gente dizia “eu te amo” sabendo que amava. Desde a mais insignificante pessoa da família até os mais avassaladores amores de corredor, a gente sentia que amava, e isso era o suficiente para ir logo desembuchando a trinca de ouro mais famosa da retórica.

A banalização do “eu te amo” criou uma geração ressabiada em dizer o que sente. Com medo das três combinações de verbetes muito almejados dos ouvidos, entramos num tempo de escassez expressiva. Como um terreno de garimpo já bem explorado.

Em tempos de solidão coletiva, acostumamos com a falta. Mas além disso, entramos numa confusão massificada que resultou num terreno moderno ruim para florescer o amor.

A inconsistente crise do “Eu”

Conhecer-se sempre foi o maior desafio do ser humano. Saber quem somos é uma das pergunta mais feita desde que o homem notou-se como ser, mas também é uma das únicas questões que menos encontramos respostas concretas. 

A maioria de nós tem só um pequeno flash da compreensão e do entendimento de si. Isso nos incomodou sempre, mas nem todos realmente se importam com esse olhar para dentro de si. Todo mundo tem seus escapes e suas maneiras de fugir de si.

Apesar da crescente onda da psicologia aplicada, da meditação e de todos os métodos de autoconhecimento estarem em crescente popularidade — e muito disso é devido ao diagnóstico incontestável da falta de sanidade coletiva em que vivemos e da evidente crise na saúde mental padrão — ainda assim, há esconderijos pessoais que a gente não ousa entrar para entender. 

Lembro de uma amiga que um dia me disse que gostaria de mudar de país para esquecer a crise pessoal que estava vivendo. Lembro de ter-lhe dito: “Não vai adianta, querida. O seu problema é que onde quer que esteja, você estará lá!” Ou seja, o problema dela é lidar consigo mesma.

Ter a dimensão completa de si é um dos trabalhos mais difíceis e dolorosos que alguém pode insistir em procurar. Vasculhar-se pode ser realmente doloroso, afinal, o espelho da alma reflete tudo inclusive aqueles inevitáveis limites que temos que encarar.

Por um outro lado, não devemos nos acovardar diante das descobertas. Quando somos ousados para deixar de olhar na superfície e perceber que, apesar do baque de encontrar-se ser grande, isso pode ser realmente uma grande viagem para corajosos.

Além disso, precisamos parar de se tornar pessoas que criam e projetam as suas próprias personalidades de maneira artificial, inexata, virtual e abandonar essa versão impalpável em que acabamos acreditando diante do circo que nós próprios montamos para fingir ser.

A consciência de si, ou melhor, do “eu”, nos ajuda também a nos recolocar diante de uma mundo sem significado. Encontrar nosso lugar diante das pessoas, da nossa realidade vivenciada e do outro também é fundamental. A gente não sabe o que é “eu”. 

Esta é a primeira razão que não temos mais a intrepidez de olhar bem diante do olho de alguém e revelar o amor pelo outro em palavras. Quem não sabe sobre si, não sabe o que quer.

A falta de consciência do “Te’

Bem, se não damos conta de olhar para si mesmo, quem dirá do outro. Sobretudo, em um mundo onde a preservação de si próprio é uma religião destemida e crescente, não há espaço para o outro.

Perguntei a um amigo que trabalha no ramo alimentício se era apenas impressão minha ou antigamente os produtos eram enormes e agora eles vêm diminuindo.

Ele me confirmou, sem pestanejar, que muitas indústrias estão realmente investindo em produtos e embalagens que tenham pequenas porções. A razão é simples: O mundo está cada vez menos comunitário. Se estamos vivendo uma vida mais sozinha, não faz sentido ter produtos tamanho família. Bingo.

Não só a gente tá se acostumando a viver sem o outro como também isso gera uma individualidade problemática. Minha avó sempre dizia que o mundo tem a filosofia prática do: “Pouca farinha, meu pilão primeiro”. Isso quer dizer, a gente não só vive mais desacompanhado como também liga cada vez menos pra condição do outro.

Nesse sentido, entrar um cinismo diante dessa verdade que nos afunda mais nesse buraco da falta de senso de comunidade. Sem dúvida, o mais certeiro caminho para a infelicidade é a trilha do egocentrismo. 

Embora esta percepção crítica seja uma realidade muito conhecida pela simples leitura do contexto atual, ainda assim, veneramos sem perceber os modelos que bonificam a ideia de isolamento, dizendo sempre assim: “Bem, o mundo é assim, não é? O que eu posso fazer?”

A pergunta que não quer calar continua gritante: “Por que todo mundo se sente sozinho, mas mesmo assim realiza pouco para mudar?”. A resposta é certeira: É justamente porque perdemos de dimensão a realidade coletiva. 

Criamos um mundo para lutar as nossas próprias lutas, para conquistar as nossas próprias coisas, para lidar apenas com as nossas questões, para viver o “eu mesmo” sem interrupções. Essa independência pode parece protetora num mundo que não aprendeu a frustrar-se. A auto-preservação nos impede de avançar.

Ao perdemos a dimensão do outro, não faz mais sentido dizer “eu te amo”. E a razão é básica: Não é viável amar sozinho. Nem mesmo a si. Parece óbvio, mas esquecemos: Amar o outro é prerrogativa básica para existir “Eu te amo”.

O desconhecimento do “Amo”

Eu vivo perguntando para as pessoas: “Você acha que já foi amado de verdade na vida?”. A cena é sempre a mesma: A surpresa no olhar de quem nunca pensou sobre isso, uma pausa pontual e depois um breve balbuciar: “Não sei. Talvez.”. E sempre concluo dizendo: “Se você tivesse sido, saberia com certeza.”

Para muita gente, declarar amor hoje é como estar pelado numa grande avenida. O amor tem uma faceta de vulnerabilidade que não estamos acostumados a sentir. Ele é realmente o mais irrastreável e desejado dos sentimentos desconhecidos.

O amor é de uma nudez impressionante. E aqui tem um ponto a esclarecer: Não falo de sexo, falo dessa dimensão que o amor tem de nos colocar diante do outro sem reservas. De nos escancarar para o outro a partir de uma inconveniência ímpar. 

É por isso que não sabemos reconhecer o amor. Não queremos mais essa fragilidade. As pessoas não querem escolher errado, então elas atrasam qualquer decisão. Dizer que “eu te amo” para um parceiro em potencial pode significa para elas que não pode dizer o mesmo para outro. E isso nos acovarda.

Entende que se estamos tendo dificuldade de identificar o que é amor e de sentir-se amado, não faz sentido dizer a tríade verbal do “Eu te amo? Esta também é uma das razões da carência de um “eu te amo” despretensioso?

Como recuperar o “Eu te amo”?

O que não te contam sobre o “eu te amo” estar cada vez mais raro é que, na teoria, precisamos ir atrás de entender quem somos, aprender a identificar o que o outro precisa e saber reconhecer no amor a sua mais pura praticidade existencial. 

Não saber-se reconhecer significa aceitar-se com uma mediocridade terrível e desistir de tentar uma evolução pessoal mais produtiva e benéfica a si próprio. É passar a vida sem ter sido o que poderia ser.

Não dar um passo em direção das outras pessoas por egoísmo, por receio, por trauma, por qualquer razão que seja é assumir que a sua sensação de auto-suficiência te empurrou para uma vida sem legado.

E por último, não ser capaz de amar é assumir que eliminou uma parte fundamental da nossa humanidade. É dizer que teve uma vida sem construir uma ponte qualquer com alguém. É ter apenas a si mesmo como uma trágica referência única.

 O mais curioso disso tudo é que a geração que arrota liberdade, que diz viver mais intensamente, que se envolve entre si sem se preocupar tanto com as tradicionais amarras morais é ironicamente a que mais respeita o “eu te amo”, mas a que menos ama intensamente. Vai entender. 

Ninguém mais sabe o que é o “eu”. Ninguém mais sabe o que é o “te”. Ninguém mais sabe o que é o “Amo”.

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