O que não te dizem sobre a complexidade do outro

Na mesa dos cafés começam muitas coisas importantes, mas também muitas injustiças. Entre os goles, há sempre um sujeito a ser malhado. E todo mundo tem o seu próprio Judas de estimação.

Cheguei mais cedo do que o combinado. Escolho a mesa mais perto da porta por puro capricho, peço o meu já tradicional suco de laranja sem açúcar ratificando a formalidade do meu estômago que anda recusando cafeína como um cão enjoado de biscoito.

Dispenso o líquido preto, mas nunca recuso um pão de queijo acompanhado de uma boa conversa em volta da mesa. Chamo de boa conversa apenas aqueles papos que saímos de lá com a impressão de que ganhamos uma biblioteca nova para explorar. Pois bem, esta era a cena ordinária em questão.

Chega um velho amigo de longa, dobra o guarda-chuva todo atrapalhado, me cumprimenta com a informalidade de uma amizade sólida, queixa-se da falta de estacionamento, toma sua posição na cadeira em frente a minha e reclama do lugar que escolhi como de praxe. Apenas sorrio da sua inconfundível azedume cômico. Ele pede o seu café forte e rígido, sem ornamentos carnavalescos.

Não demora muito para começar as arbitrariedades. Antes que eu molhasse o bico, ele começa o papo criticando os comportamentos indecorosos de uma outra pessoa em comum que frequenta nosso círculo de amigos — todo mundo tem um amigo daqueles que só a gente mesmo aguenta. Vai logo me questionando como é que ainda mantemos o tal fulano na amizade.

A indignação era tanta que, descrevia-o como um diabo de rabo e tudo mais, concluindo: 

 — Olha só, cara, eu acho que ele precisava era realmente se dar um pouco mal na vida para aprender a ser diferente com as pessoas. Eu acho que ele tinha mesmo que passar uns apuros graves para aprender a ser menos filho da puta.

Pacientemente, esbocei um sorriso incólume, e disparei:

 — Olha, somos amigos dele certo?

Esperei a resposta verbal que por teimosia não veio. No lugar, uma expressão de dúvida e incerteza no rosto talvez almejando onde é que eu queria chegar com aquilo. Prossegui cuidadosamente:

 —  Então, acho que como amigos dele, precisamos entender que: se ele age, fala, pensa, faz e vive de um jeito complicado é porque ele tem uma história. Você conhece a história dele?

A minha pausa proposital agora exigia uma resposta verbal.

 — Sei um pouco, mas não tudo..

 — Tá bem, vou te contar algumas delas…

Aproveitei que ele já tinha me dado toda a atenção dele para contar algumas coisas realmente problemáticas na vida dessa terceira pessoa que, não justificava, mas explicava algumas coisas denunciava a sua postura rude diante da vida. 

Ele me confessou que não fazia ideia daquilo tudo. Via o espanto e o arrependimento dele flagrante.

As pessoas são complexas por motivo de: Elas são pessoas

Não temos como saber ao certo o que está passando na cabeça das outras pessoas. E mesmo que você conviva já há algum tempo com elas, em um dado momento, acaba por descobrir que não a conhecia tanto como imaginava. 

Não só porque as pessoas são complexas, mas porque elas seguem mudando. É por isso que, naturalmente, acabamos analisando pessoas sem levar em conta aquilo que elas viveram. Não podemos nos acostumar a imaginar que alguém simplesmente é cruel por esporte — embora exista sim essa dimensão.

Outro dia uma amiga teve que ouvir o chefe justificar suas atitudes grosseiras com a frase: “Eu fui forjado na dor”. Quando ela me contou, recomendei que ela respondesse: “Mas, meu anjo, essa é sua história. Você tem que dar conta de aprender a lidar com ela. Não deposite nos outros os seus encargos emocionais.”

Quando nem a gente mesmo aprende a olhar para nossa história e encontrar os buracos que nos transformam e nos direcionam em todos os sentidos da vida, atuamos em uma superfície áspera completamente desnecessária. O amargor da vida traz para nossa rotina apenas mais um elemento estressante.

 A complexidade do outro é a nossa própria, mas com detalhes diferentes

Nosso cérebro pode até comprar a ideia de que se a gente se comporta de uma determinada maneira, estaremos sempre condenados a repetir esse padrão, e essa mentalidade facilmente reforça comportamentos viciado e acaba se fixando hábitos ruins. 

Esse é ao mesmo tempo um labirinto sem saída no qual permanecemos perdidos, mas pode se tornar um esconderijo sentimental diante da covardia da mudança de mente. 

Talvez seja essa ideia de traços de personalidade imutáveis que reforça o corpo emocional. Isso explica a origem da violência, por exemplo. 

É justamente essa ideia que justifica, sermos rudes com pessoas, xingarmos desconhecidos no trânsito, sermos mal educados com pessoas que só estão fazendo seus trabalhos e ignorar pontos de vistas importantes mas distintos do nosso que acabam cruzando com a sensibilidade do outro de maneira bélica. 

Todo mundo, no fundo, é bem mais complicado do que acha que é

Ter uma simples empatia intencional de imaginar-se no cenário do outro, pode desenvolver na gente muito mais compreensão e identificação com aquilo que as pessoas estão vivendo.

Fazer o esforço mental para tentar entender o momento em que pessoas estão tem que ser um exercício recorrente. Buscar capturar elementos da história de pessoas nas entrelinhas das suas ações não só nos ajuda a ser mais compassivos como elas, como também desenvolve na gente uma noção empática das realidades distintas. 

O que não te contam sobre a complexidade do outro é que entender e se fazer entendido nessa guerra de lados diversos, pode resultar em uma aderência maior à compreensão de que a coletividade e a flexibilidade são uma obrigação fundamental na convivência. 

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