O que ninguém te fala sobre ter quase 30 no RG

Completo 28 anos hoje. Os fios brancos do cabelo se multiplicam e os amigos reduzem numa velocidade assustadora. Os poucos que ficam sempre me dizem que apesar de ser considerado jovem, parece que já vivi mais que uma pessoa de 40.

Olhando para trás, vejo o tanto de coisa que já vivi e até me assusto. Pô, vovó estava certa quando disse que depois dos 18, a vida anda depressa demais que nem conseguimos acompanhar.

Tem gente que se importa mesmo em receber congratulações — aliás, esta é uma palavra de velho. Não sou ingrato. Sei que é bom saber que lembrarem da gente, mas receber “Parabéns” é um pouco estranho para mim. Soa algocomo: “Meus cumprimentos por ter apenas não morrido mais um ano”. Sei lá, este mérito nem parece ser meu. Enfim… é bom saber que fazemos parte da vida das pessoas e que elas valorizam a gente.

Lembro exatamente do dia desta imagem acima. Nossas festas de aniversários eram completamente diferentes das de hoje. Não tinha buffet. Quem quisesse fazer uma festa temática tinha que aprender a enrolar brigadeiro na mão, fazer decoração de isopor e aprender a rabiscar os desenhos da TV numa cartolina — Nem sempre dava certo, mas valia a pena.

A família era a principal empenhada na festa. O tio vestia-se de palhaço, o primo escolhia as músicas, a tia fazia a lembrancinhas, a avó cuidava da cozinha. Era uma mobilização familiar. E nem grupo de Whatsapp existia.

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A indústria da festa infantil surgiu bem depois. O glamour era ter a família reunida e pronto. Não ganhávamos presentes caríssimos, mas éramos completamente gratos pelo que nossos pais podiam nos dar.

Nenhuma passagem para o Hope Hari era mais legal que o copinho de café com gelatina colorida enfiada na boca, o bolo decorado sempre com muito glacê, os salgadinhos fritos e açúcar eram liberados. A criançada em volta da mesa era considerado uma família de sucesso. A gente andava sempre em um bando de crianças, e se via como tal.

Naquele dia, a gente usava a melhor roupa, e às vezes, uma fantasia bem brega de um super-herói que uma vizinha costurava, chorava na hora de cantar parabéns de pura vergonha, detestava o momento do “com quem será” — aquilo parecia um casamento sem volta — e fazíamos de tudo para apagar a vela primeiro que o primo infeliz. A gente brincava com qualquer criança. O bexigão de doces era o momento mágico.

Não me considero abençoado pelo sucesso que conquistei a cada dia, pelo bom trabalho, mas sim porque sei que boa parte do que sou aconteceu porque sempre soube da onde vim, sempre valorizei pessoas que me transformaram em quem sou, sempre acreditei que a simplicidade era o elemento chave para nunca perder de vista o propósito da vida.

Hoje, nos quase 30, o que ninguém te conta é que completar mais um ano só vale a pena se for com das pessoas que amamos. Sem virtualidade, sem impessoalidade, sem emoticons. Festas surpresas nunca são realmente surpresas.

Naquela época, a gente não ligava para coisas fúteis, a gente só queria ganhar um beijo, um abraço e torcer para que dentro do pacote tivesse brinquedo e nunca roupa. A gente era tão feliz sendo simples.