O que ninguém conta sobre o jeito que pensamos os relacionamentos hoje

Estou na mesa comendo com amigos. Ouço alguém dizer que ficar apenas com uma pessoa é ser ingênuo e que reservar-se a exclusividade é coisa de gente burra que não sabe o que o mundo tem a oferecer.

Mais uma vez, escolho me calar. Aquele olhar volta-se sobre mim. Sorrio sozinho diante do silêncio e continuo minha garfada como se nada tivesse acontecido.

Passa pela minha cabeça que a maioria adepta a esse discurso procura apenas justificar sua imensa falta de habilidade em dedicar-se a alguém.Faço essa acusação séria na mesa e complemento que estamos diante de uma geração completamente descompromissada, sem a mínima paciência, que age de maneira inconsequente e que não tem o desejo de crescer conjuntamente.

Mais uma vez, o silêncio paira. Concluo que temos por aí, de maneira nada exagerada, pessoas com sentimentos confusos, de idade emocional infantil e viciadas em si mesmo. Enterro o assunto. O clima de luto é visível.

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Alguém sugere que penso isso porque meu relacionamento antigo fracassou. Termino de engolir sem levantar a cabeça. Arrumo os óculos, largo o talher e pergunto para o cidadão quais são os aplicativos que ele mais utiliza no celular. Ele faz cara de quem não entende.

Antes dele responder, disparo:

“Sim, a pergunta faz sentido. Basta uma voltinha nos aplicativos instalados no seu celular para descobrir que você os usa para resolver suas carências, problemas e ansiedades.”

Ele tenta me interromper, mas eu aumento a voz:

“Basta abrir o Instagram, para ver uma coletânea de melhores ângulos ao lado de paisagens invejáveis pagas a prestação do cartão, para notar os pequenos recortes fotográficos dos pratos bem enfeitados, as filmagens das suas bebidas caras do último final de semana. O rosto sempre maquiado das meninas e o cabelo e barba bem cortadas dos rapazes proporcionalmente tão enganoso como as suas vidas altamente felizes, bem resolvidas e agitadas.”

Dou um gole na água com gás e limão, prossigo:

“Se tivermos o trabalho de ver o Whatsapp notaríamos que fizeram dele um refúgio para momentos solitários. Basta acessar a lista de contatos para que o fim de semana não fique empatado. Imagens, vídeos e troca de mensagens nos dão a sensação de que estamos sempre acompanhados ou na companhia de qualquer um que quisermos e que nunca dormiremos sozinhos. E o Tinder?”

Ele engole seco, termino a pausa:

“É a maior marca que do ápice do desespero de qualquer um. Resolvemos olhar para as pessoas e avaliá-las apenas pelos olhos. A maneira que o amor recruta hoje é praticamente online, sem contato físico inicial, sem conversas longas, sem olho-no-olho, sem sorrisos intervalados e nervosismo antecipado.”

Ele, a essas alturas já fisgado, acaba dizendo que as redes sociais também podem ajudar muito. Tenho explicar:

“Esse modelo de procurar amor sem compromisso não favorece as pessoas que não estão em uma academia, que não frequentam restaurantes conceituados, que não viajam para lugares lindos, que não são consumidores inteligentes e que não se preocupam com uma vida virtual interessante. É nitidamente coisa de quem se preocupa apenas com aparência.”

Antes de deixá-lo falar, concluo didaticamente:

“Aliás, já que citou, preciso dizer que, desde meu último relacionamento, conheci pessoas ótimas. No entanto, todas elas estavam sempre tão cheias de pré-requisitos particulares, a maioria não queria conversar sobre coisas importantes, grande parte vivia usando suas desculpas esfarrapadas para fugir de responsabilidades, muita gente era completamente viciada em sua própria personalidade, de modo geral, nenhuma delas parecia querer ser madura suficiente para aprender a construir algo junto sem ressalvas. Elas tinham funis absurdos que revelavam um grande medo de envolver-se. A verdade é que sempre será um desafio encontrar alguém que esteja minimamente disponível a envolver-se sem que esteja com um zilhão de quilos de bagagens, mas junto disso, muita gente quer ser amada, mas não está pronta para amar. Você acha que tudo isso e culpa da ideia de exclusividade nos relacionamentos?”

Espetei o último pedaço de carne com agressividade, coloco-o inteiro na boca e mastigo como quem espera uma resposta.

Sentia de longe o medo de me dar uma resposta sincera àquilo.

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