O que ninguém te conta sobre ser um gênio nada genial

Naquele tempo, tudo que tínhamos eram os já falecidos Orkut e MSN. Se você não faz idéia do que estou falando, talvez seja melhor dar um Google rápido. Eu espero. Vai lá.

Pronto? Já imaginou um mundo em que a internet ainda não cabia direito dentro de um telefone? Pois é, tínhamos “malemá” uma rede bem mequetrefe para ver e-mails. E olha lá. Mandávamos muito SMS. Ok, não fique com vergonha, pode dar Google de novo.

“Estou a caminho”, dizia a mensagem pré-definida. Naquele tempo a gente se falava apenas por mensagem de texto e nem tinha certeza se ia chegar para o destinatário. Era uma roleta russa.

Se quiséssemos saber aonde seria a festa de aniversário do nosso amiguinho da escola tínhamos que recorrer a mapas mentais dos pais e um pouco de sorte. Saímos de casa sem saber da chuva surpresa no fim da tarde. Não podíamos desmarcar nada de última hora com ninguém.

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Acho que fui a última geração que usou uma Barsa. Essa eu explico. Era uma enciclopédia britânica em doze volumes que custava o preço de um carro popular. Era o Google que tínhamos. Passei muito tempo copiando mapas numa folha manteiga, verificando verbetes e seus significados, fazer trabalho em grupo dava realmente trabalho. A Barsa lá era uma espécie de Deus, um oráculo, e ficava inclusive na prateleira — para não dizer altar — mais alta e segura da casa.

Teve um tempo em que namorei uma garota à distância e cansei de ficar acordado até tarde para falar um pouco com ela via MSN, não podíamos ficar conectados uns aos outros o dia todo como hoje. Era tudo que tínhamos.

O telefone fixo ainda tocava. A hora do ônibus era um mistério. O vídeo game ainda “estragava” a televisão — pelo menos era isso que nossos avós diziam. Ninguém tinha muitas informações sobre muita coisa.

Também acredito que fui a última geração que sabe o que significa “1,2,3 lá vou eu”, “Tô de figas”, “Lenço atrás, corre mais”, “O stop é…”. Tínhamos discussões intermináveis para saber se a bola passou por cima do Raider ou não — o que tecnicamente era considerado trave ou gol no jogo.

Raros são aqueles que tem arquivos filmado dos seus primeiros passos, que conseguiram gravar suas festas de aniversários com o bolo de glacê da tia que manja de doces, poucos tem imagens se lambuzando na gelatina verde no copinho de café ou feliz embaixo daqueles bexigões cheios de doce.

A gente não era mais feliz, muito menos infeliz, a gente era apenas uma geração que não tinha fixação por informação.

Não pensávamos em um mundo com todas esse conhecimento disponível. Não pensávamos que os jovens teriam tanto acesso a leitura, a conteúdo, a diversidade de pessoas, a cinema de boa qualidade, a cartão de crédito pessoal e um aparelho em que nossos pais soubessem tudo sobre a gente em qualquer momento. Era um mundo muito dependente de coincidências, organização e um pouco de imprevistos.

Não faço aquele papel do tiozão nostálgico completamente convencido de que sua geração foi a melhor que existiu. O mundo nunca teve melhor. Nunca produzimos tanto. No entanto, acredito piamente que não estamos nos tornando mais geniais, apenas temos informações demais sobrando por aí.

Não somos gênios, apenas estamos num overload de informações. (Se você não sabe o que é isso, dá uma última googlada sem medo.)

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