O que ninguém te fala sobre migrar para a vida adulta

Todo mundo sabe da minha clássica birra com a juventude moderna. Estar perto dos trinta parece não me autorizar a ensaiar uma pirraça, mas a cisma é um esporte antigo.

Tenho convivido mais tempo com pessoas mais jovens que eu e algumas delas acabaram de começar nesta empreitada eterna de uma sucessão interminável de boletos chamada de vida adulta.

O diagnóstico é claro: Estamos perdidos.

A ironia de todo esse episódio é que virar gente grande não parece tão fácil para uma geração que é considerada a mais preparada de todas, ou seja,ao mesmo tempo, em que possuem currículos invejáveis e experiências quilométricas são também descaradamente os mais despreparados para a vida nua e crua.

São meninos e meninas cheios de habilidades mas que não foram treinados para errar. São cachorrinhos com inesgotáveis truques bem ensaiados, mas que não param de chorar porque sempre querem passear na coleira.

São famintos por quaisquer tecnologias e elas lhes são familiares, mas não lidam bem com os danos que elas criam. Gostam dos louros e reconhecimentos mas ignoram o esforço até lá como um desprezo proposital.

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Colecionam selfies nas mais belas paisagens e gabando-se de conhecer diversos lugares no mundo todo, mas não visitam um centímetro da sua própria realidade interna. As suas viagens são todas exteriores, mas nunca para dentro. Alguns até meditam, fazem yoga, são naturalistas, mas no que se trata de decisões emocionais na vida, são mestres na procrastinação relapsa.

O sofrimento parece tomar conta de uma parcela consideravelmente real nos seus cotidianos. Foram ensinados que a felicidade estava iminente, mas o “logo ali” nunca chega. Esconderam deles que teriam que criar-se diante da dor. Até o mertiolate é Nutella.

A coisa piora no caso da classe média e da alta. Acostumados com a mãe passeando na diretoria dos bons colégios particulares, aprenderam o verbo To Be antes mesmo de decorar Bhaskara, tiveram a chance de ver a Monalisa de perto e ao vivo ainda aos 20 e poucos, mas não aprenderam a ter conversas sérias a não ser via mensagem de texto e preferem relacionar-se com o outro virtualmente. Até o tradicional “te pego na saída” é raro de ouvir.

Um segundo exame se faz necessário

A culpa não é deles, muito menos dos seus pais. A geração que teve muito mais oportunidades que a genealogia inteira, criou-se com a sensação de que a vida é uma linha reta e crescente, por isso, eles se sentem gênios não compreendidos que o mundo ainda não descobriu.

Nas suas profissões, acreditam que não podem encontrar seus sonhos trabalhando para qualquer pessoa. Olham sempre para uma maneira de não depender de instituições, de não ter que aguentar aquilo que julgam não merecer, de lutar pelo que querem — ainda que na maioria das vezes não saibam o que seja.

Acreditam que passar perrengue é trair sua vocação. Ficam perdidos, empacados e estacionados em sua própria falta de humildade. Eles têm dificuldade de lidar com a velocidade das coisas. Sofrem as mais terríveis ansiedades.

Negociam com tudo e todos, mas não dão conta de lidar com os degraus da vida sendo subidos um a um. Demitem-se por qualquer razão, rompem relacionamentos por comodidade, arriscam tudo sem responsabilidade. Colocam-se sempre em primeiro plano crentes que um mundo ideal está para chegar.

Como todo estreante, eles tentam forçar as regras, ganhar debates na histeria, conquistar tudo no grito, a fazer-se ouvido nos empurrões nada éticos. Vivem como se alguém estivesse lhes devendo a felicidade tão sonhada.

A crise da autoridade e de si mesmo

Nesta onda, os pais acabam negligenciando a postura de autoridade dentro de casa realizando manobras para poupá-los das angústias e para garantir conforto que eles próprios não tiveram, os professores têm perdido sua voz e mal conseguem realizar seu papel de educador, os patrões têm perdido o cabelo apavorados com uma geração que reage a tudo de maneira imprevisível.

Estamos diante do mundo lotado de direitos sem que haja responsabilização, maturidade e reciprocidade.

Os jovens vivem temendo o fracasso pessoal, sendo perseguido pela ideia contínua de que o futuro deve estar garantido sob qualquer circunstância. Acontece que demoram para entender que a vida não é a historieta que os seus pais contaram.

Foram treinados para ser uma máquina de habilidades como ferramentas completas, mas ninguém falou que teriam que estar preparados para enfrentar a dor e a decepção. A todos, cabe fingir felicidade. E calado para não ser ridículo.

A pílula de realidade

Precisamos entender que melhor do que ter um bom emprego, ter uma condição razoável, falar inglês fluente ou até mesmo ter qualquer produto da Apple, é aprendermos que vão ter horas que precisaremos nos virar sozinhos.

É como se a vida dissesse em alto e bom-tom: “Daqui para frente, bicho, é com você”. E ao invés de nos recolhermos ao desespero, pudéssemos responder: “Sabe, eu estou com medo disso, tenho essas dúvidas aqui, me sinto confuso quanto a isso e não faço a menor ideia de onde isso vai me levar, mas vou tentar descobrir.”

A vida adulta é partir de um ponto em que você terá que conquistar um cantinho nela mesmo que não haja qualquer garantia de sucesso e ter a coragem de escolher ir a luta mesmo assim.

É saber que nada vai sair como planejado, que nada é tão completo como parece, que nenhuma pessoa pode nos garantir a vida de sucesso e nenhuma coisa no mundo vai nos completar por inteiro, e saber que já que estamos aqui, e essa vida é única, curta e intransferível, é melhor não ficar choramingando por aí, porque o último minuto de vida pode ser agora.

O que ninguém te fala sobre ser jovem é que você vai se dar muito mal na vida, mas não tem nada de errado com isso. Apenas siga até que tudo fique bem.

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